segunda-feira, agosto 06, 2012

Sonhos


 - Com o que sonhas tu, princesa? - pergunta-lhe o rapaz meio distraído a olhar para o chão.
Chama-lhe princesa não por qualquer ligação de sangue azul. Chama-lhe princesa porque ela fá-lo sentir um príncipe ao lhe aquecer o coração com a sua presença, beleza e palavras.
 - Sonho com o verão, meu bem. Sonho com noites quentes e mesa farta; sonho com muitas pessoas, amigas e familiares, a sorrir e a falar alto enquanto se presenteiam com óptimos acepipes e brindam com os seus copos de vinho. Sonho com camaradagem e luar, o suspiro da brisa por entre as árvores, o silêncio ensurdecedor de espaços abertos, em repouso.
Mexe no cabelo, puxa para trás da orelha e olha para ele, o que se sente príncipe junto dela, o que ela vê como príncipe mas não tem, nunca terá coragem de o chamar como tal. Ele, como que adivinhando, olha nos olhos dela e vê neles aquele brilho inocente de criança, aquele espectáculo de cor viva bombástico que parece que sorri sempre que se entre-olham.
 - Tens sonhos assim? - pergunta-lhe ela, sem afastar os olhos.
 - Acho que sim. Não sei. Não me lembro dos meus sonhos. Têm muito nevoeiro. Mas senti o teu como sendo meu, e senti um arrepio, um impulso no bater do coração.
Os olhares dão aquele abraço que ambos querem dar, mas que eles - impedidos por quais barreiras invisíveis - não se permitem tal deleite.
E continuam a observar o riacho à medida que o sol se começa a esconder atrás da montanha, e a Lua caminha para a sua posição de lanterna na noite escura.

Paulo Aroso Campos - paulo.aroso@gmail.com