quinta-feira, outubro 14, 2004

Teoria do caos, e repercussões...

... ou uma opinião sobre a Abertura Solene na Universidade de Coimbra.

"Renato Teixeira assume que este grupo adopta "uma táctica de desobediência civil de modo a fazer com que o Governo caia o mais rapidamente possível"."
in Diário As Beiras, 14 Outubro 2004

A famosa teoria do caos postula algo parecido com isto: o bater de asas de uma borboleta na Florida está directamente ligado ao aparecimento de um tufão no Japão. Com esta declaração de Renato Teixeira durante a invasão na abertura solene, vejo que este criativo do Conselho das Républicas conseguiu mais um passo para a concretização desta teoria. Veja-se: desobediência civil para fazer cair Governos! Invasão de uma abertura solene da Universidade de Coimbra! Já ouço o bruá da populaça!
Medo! Dor!... pena...

Desde que entrei na Universidade, no longinquo ano de 96, ainda com a Zita Henriques nos destinos da AAC, a luta contra as propinas já estava num movimento descendente, mas ainda estava quente. Nessa altura o Conselho das Républicas era um conjunto de pessoas que admirava porque, além de representarem algo nobre como as républicas - que se destacam pelo companheirismo, democracia, integração, tertulia, respeito (sejam pela ou contra a praxe) - apresentavam-se sempre em Assembleias Magnas bem informados, com uma certa dose de ironia e critica bem estruturada, por vezes de forma abrupta diziam as verdades que ninguém gostava de ouvir, apresentavam a ferida e tocavam sem qualquer preconceito ou medo. Desses manifestos, sempre mostrados por um deles, saiam sempre propostas ou moções, mais radicais do que as da DG, como é normal, mas sempre possiveis de fazer e com aquela ponta de irreverência e imaginação que sempre caracterizou os alunos de Coimbra.
Neste momento, com a extinção do Colectivo Ruptura, o Conselho das Républicas cumpre um excelente papel na divulgação das Magnas e atrai algum do seu público, sempre interventivo e com incentivos a que os mais novos se expressem no palanque.

Mas... há sempre um mas... neste momento lamento dizer, mas a irreverência que antes caracterizava, tornou-se amargura, fel. Um ódio que passa por cada palavra de cada elemento que toma a palavra; um radicalismo exacerbado que eles mostram com opulência, como que para ridicularizar os quantos que são mais certinhos. Sem qualquer humildade, eles põem na boca dos outros as suas palavras e desprezam opiniões que são opostas das suas; não têm pejo em apelidar de fascistas quem eles não concordam, e dão sempre o mote das palmas/apupos sempre que acham isso necessário.
Depois das fantochadas e palhaçadas em Magnas, em que gostam de acusar os outros de não terem quaisquer ideias, de umas quantas defesas de honra e protestos para quem não gostam da opiniõa, amansam a multidão e dizem aquilo que a maioria quer ouvir. Nos discursos, além de citações, também não se vislumbram muitas ideias ou moções: só opiniões, tal como os que eles criticam.
Para o fim, e em apoteose, Renato Teixeira, líder, vem apresentar as propostas do grupo, ou dele. Muitas já vêm de cassetes anteriores, que parece que nem sequer foram actualizadas, excepção feita no seu discurso. O resultado, seja ele qual for, é aquele que já começamos a estar habituados: mesmo que não seja aprovado o que eles propõem, eles tratam de fazer na mesma, como que demonstrando que não precisam das Magnas para nada porque, afinal, a unica palavra que eles conhecem é RADICAL. Ah, não, também conhecem LUTA! Com todos os meios possiveis e imaginários.
Não considero o que eles fizeram na Abertura Solene como desobediência civil: foi antes uma acção desesperada de alguém que quer protagonismo, que quer sobressair da multidão. A mim já tinha sobressaido nas primeiras exortações que ele fez num Fórum do Luso, onde estive presente. Onde admirei a forma irreverente como ele falou, e como mostrou estar bem preparado e bem informado; onde ouviu calmamente quando lhe fui apontar um erro, e ele agradeceu cordialmente. Admirei todo o trabalho que eles tiveram, pela noite dentro, para apresentarem propostas, além da DG.
Não se trata de um ataque pessoal, somente uma opinião geral de um acto ocorrido. Que não gostei, e que vai provocar, certamente, represálias do corpo docente, seja em Senado, Assembleia da Universidade, seja onde for. Órgãos que podemos colocar a nosso favor, mas que temos colocado contra nós, numa perspectiva de luta derrotista à partida, onde perdemos toda a nossa razão, ao querermos chocar com as nossas acções. Tal como acontece com os fundamentalistas iraquianos, que divulgam as imagens das decapitações para chocar, só faz com que a raiva seja maior contra eles e que seja impossivel uma solução pacifica, responsável. Neste caso acho que se está a optar por uma fundamentalização em que ninguém ganha, e que vai abrir ainda mais fracturas no depauperado movimento estudantil (já houve um pedido da Reitoria para que a DG/AAC se demarcasse daquele acontecimento).

O momento é de reflexão: afinal para que servem as Magnas, se os elementos mais interventivos cada vez permitem menos opiniões e acabam por agir a seu bel-prazer e sem terem o acordo dos estudantes que ali se deslocam?

Paulo Aroso Campos - paulo.aroso@zmail.pt

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